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Diversão, sim

Martha Medeiros

O mundo tem que estar para brincadeira. Tem que estar. Ao menos neste momento em dezembro, no finalzinho do ano.

Se está tudo tão modorrento, alguma coisa há. Não é possível tanta queixa, tanta cara fechada. Qual é a razão da deprê universal? A razão é que o mundo não está para brincadeira. E é este justamente o problema.

O mundo tem que estar para brincadeira. Tem que estar. Ao menos agora, no finalzinho do ano. Não podemos solucionar todas as agruras com um passe de mágica, mas podemos contra-atacar doando a este mundo bélico e mal-humorado um pouquinho de fanfarronice. Chega de beiço. Hora de se divertir.

Todos sabem que as pessoas mais bem-sucedidas são, quase sempre, aquelas que se divertem com o que fazem. Diversão não significa falta de dedicação, significa apenas fazer as coisas com prazer e autenticidade. Você não nasceu para levar chumbo. Aliás, você nem sabe por que nasceu, nem sabe o que está fazendo aqui, só sabe que não há outra alternativa, nenhum plano B. então, se este é o único lugar e o único tempo que dispomos pra viver, que nos seja leve.

A gente tem que se divertir com o trabalho. Eu sei que umas profissões são mais divertidas do que outras, em especial aquelas que remuneram bem, mas enquanto o aumento não sai, o jeito é encontrar algum motivo estimulante para acordar cedo de manhã. Não se está sugerindo ficar gargalhando durante o horário comercial, se divertir consigo mesmo não requer manifestações explícitas de bobeira, é algo mais pessoal, interno, é um estado de espirito, é relacionar-se com seu ofício como se ele fosse um esporte, uma gincana, um desafio particular.

E divertir-se também com sua família, com este “brincar de casinha” que nos tira o sono e a liberdade, mas que é o que temos na mão. Cumpra o papel que lhe compete, mas veja graça nisso, ria das insanidades que a sociedade nos impõe, aproveite esse momento que não volta. Quando chegar a véspera de se despedir da vida seremos o quê? Pura memória.

Divertir-se com os amigos está implícito, assim como em festas e viagens, mas divirta-se também no sexo: a troco de quê tantas caras e bocas fatais? Goze sorrindo, sexo é a melhor coisa desta vida, desta aqui – das outras não se sabe, ninguém voltou para contar. Divirta-se também com a solidão, com suas aulas de inglês, com as palestras que você dá ou assiste, com as suas próprias inseguranças. Qual o sentido da vida se a gente não se diverte? Li em algum lugar que rir não é uma maneira de desprezar a vida, e sim de homenageá-la. Assino embaixo e passo adiante.


Domingo, 19 de dezembro de 2004.



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